quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Mecânica Pulmonar

Antes de falar mais a fundo do conceito de distensão, citoesqueleto e seu envolvimento na mecanotransdução, assunto do próximo post, resolvi revisar algo breve e básico para tal compreensão.

A ventilação mecânica é um dos principais motivos para admissão do paciente na unidade de terapia intensiva, o suporte ventilatório realizado por aparelhos cada vez mais modernos oferece aos profissionais variáveis que norteiam o tratamento e o modo de ventilar cada paciente.
Contudo, para interpretação desses dados se faz necessário que os profissionais detenham um conhecimento aprofundado sobre condições fisiológicas
, fisiopatológicas e principalmente mecânica pulmonar.
Dois aspectos importantes que devem ser compreendidos durante a análise da mecânica pulmonar: o primeiro é que o sistema respiratório possui suas propriedades resistivas, a qual é a tradução da resistência viscosa tecidual e do componente secretivo durante a mobilização de fluxo de ar nos pulmões e o segundo são propriedades elásticas ou a comumente observada complacência pulmonar, habitualmente mensurada de forma estática com a finalidade de anular forças resistivas e observar apenas a retratilidade gerada pelas fibras elásticas e a tensão superficial alveolar.
De acordo com o III Consenso Brasileiro de Ventilação Mecânica (2007) essa análise da mecânica pulmonar deve ser feita com o paciente entregue completamente a ventilação mecânica, com volume predeterminado para o seu peso corporal (6 – 8 ml/Kg), com modo assisto-controlado, modalidade volume controlado com onda fluxo quadrada, pausa inspiratória no mínimo de 2 segundos. Assim será obtido um gráfico de Pressão X Tempo constituído essencialmente de uma pressão de pico e uma de platô.

Gra. 3.1: Análise gráfica durante a ventilação mecânica

Fonte: BONASSA (2007).


Através dos valores mensurados no gráfico a pressão de pico é resultado de todas as forças que se opõe durante o fluxo de ar para dentro dos pulmões, sendo ela diretamente proporcional ao fluxo, volume, PEEP, resistência das vias aéreas, a forças retráteis (elástica e tensão superficial alveolar) e inversamente proporcional a complacência pulmonar.
Após a pausa de dois segundos encontra-se a pressão de platô, a qual não há fluxo de ar (Fluxo=0), ou seja, o componente resistivo é zero neste ponto, sendo traduzidas apenas as forças tensionais (elástica e tensão superficial alveolar).
Durante a pausa inspiratória todo volume de ar é acomodado dentro dos pulmões e ocorrem dois fenômenos, o stress relaxation, no qual o tecido pulmonar entra em relaxamento e o Pendelluft que é a transferência de volume de gás entre os alvéolos com constantes de tempo diferentes (Eq. 3.1), variável diretamente proporcional a complacência pulmonar (Eq. 3.2) e a resistência de vias aéreas (Eq. 3.3).

Eq. 3.1: Constante de tempo

T = Rva x Csr

Onde:
T = constante de tempo (seg)
Rva = resistência das vias aéreas (cmH2O/L/s)
Csr: Complacência do sistema respiratório (L/cmH2O)


Eq. 3.2: Complacência

Cst = Vt/Plat - PEEP

Onde:
Cst = complacência estática (ml/cmH2O)
Vt = volume corrente (ml)
Plat = pressão de platô (cmH2O)

O componente viscoelástico, ou seja, a pressão elástica (Eq. 3.4) e a resistência pulmonar podem ser determinadas através das seguintes equações.

Eq. 3.3: Resistência

Rva = Ppic – Plat/Fluxo

Onde:
Rva = Resistência de vias aéreas (cmH2O/L/s)
Ppic = pressão de pico (cmH2O)
Plat = pressão de platô (cmH2O)

Eq. 3.4: Pressão Elástica

Pel = Vt/Csr

Onde:
Cst = complacência estática (ml/cmH2O)
Vt = volume corrente (ml)

Logo podemos analisar o gráfico da mecânica pulmonar da seguinte forma:

Gra. 3.2: Análise gráfica da mecânica pulmonar.


Fonte: III Consenso Brasileiro de Ventilação Mecânica (2007)


Com mensuração dos pontos importantes, cálculos simples e bastante conclusivos o delineamento do diagnóstico físico funcional e norteamento de condutas terapêuticas se tornam bem embasados e oferece ao profissional a possibilidade de um acompanhamento quantitativo tanto do tratamento quanto do caso clínico.
Portanto é indispensável ao profissional o conhecimento da equação do movimento (Eq. 3.5), a qual envolve tanto o componente resistivo como o elástico, resultando na pressão total gerada no sistema respiratório. 


Eq. 3.5 Equação do movimento

Pva = Pres + Pel + PEEP

Pva = (Rva x Fluxo) + (Volume/Csr) + PEEP


Onde:
Pva = pressão nas vias aéreas (cmH2O)
Pres = Pressão resistiva (cmH2O)
Pel = pressão elástica (cmH2O)
PEEP = pressão positiva expiratória final (cmH2O)
Rva = resistência das vias aéreas (cmH2O/L/s)
Fluxo = dado em L/s
Volume = dado em L
Csr = Complacência do sistema respiratório (L/cmH2O)

Com a equação do movimento a análise e investigação diagnóstica se tornam bem delineadas para ser descoberta qual o fator ocasional do aumento da pressão em vias áreas, já que inúmeras alterações clínicas influenciam sobre a resistência, complacência/elastância, delineando a particularidade dos objetivos ventilatórios.

Portanto mensure e trace objetivos, é importante para nossa profissão e mais ainda ao paciente.


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